Leonardo Da Vinci: 500 anos da morte do homem quase mito

Não é tarefa das mais fáceis esboçar uma biografia de uma “força da natureza” como o gênio Leonardo Da Vinci.

Obviamente, muitas lendas, mistérios e invencionices cercam a sua figura. Mas o que é comumente aceito como verdade acerca das suas origens diz que o mestre nasceu na pequena vila de Anchiano, na comuna de Da Vinci, em Florença, província da Toscana.

Era o ano de 1452, aos 15 de abril, quando nascia, para muitos, aquele que seria a expressão máxima do Renascimento. E a 02 de maio de 2019, provavelmente de morte cerebral, morria, no castelo de Cloux, em Amboise, França, um dos maiores gênios da humanidade.

Era o filho de Piero da Vinci (um tabelião) e de Caterina Lippi (camponesa) que vinha ao mundo fruto de uma relação acidental, que o tornou praticamente um órfão, com uma presença quase discreta da mãe e praticamente nenhuma do pai.

No entanto, livre e desembaraçado! Mas nem de longe livre e desembaraçado como os garotos livres e desembaraçados dos nossos dias. Pois, no seu caso, a sua liberdade tinha como pano de fundo a bela paisagem do sul da Itália, às margens do Mediterrâneo, onde a vida se desenvolvia pujante e onde a natureza transbordava em vigor e energia!

O pequeno Leonardo não tinha ao seu redor o barulho dos carros, a fuligem pestilenta que desarranja os pulmões e nem a luta brutal por espaço dos nossos dias.

O que ele tinha mesmo eram as montanhas e os vales da Toscana, cercados por densas florestas, oliveiras e ciprestes.

Em uma época em que, certamente, se vivia pouco e em péssimas condições de higiene – mas que, porém, se vivia!

Aliás, péssimas condições de higiene e de sobrevivência não foi, nem de longe, um privilégio exclusivo dos indivíduos daquele tempo, pois alguns rincões desse nosso tão conturbado planeta, no que diz respeito a condições de higiene e saúde, nada têm a dever às sociedades de séculos passados!

Mas, deixemos as arengas de lado, e falemos sobre o gênio; o gênio Da Vinci! Para muitos, a expressão máxima do Renascimento. Para outros, o “ponto de partida” da anatomia moderna. Enquanto, para outros, o “divisor de águas” da pintura.

Mas que pode muito bem ser-nos apresentado como o precursor da aviação, e ainda com tempo para dedicar-se à engenharia, medicina, arquitetura, música, poesia, matemática, urbanismo, escultura, e o que quer que lhe “desse na telha” de inventar.

Era o que se chamava à época um “polímata”, um indivíduo que se dedica a aprofundar-se em diversas ciências – na verdade, algo não tão incomum para a época.

Basta lembrar-nos de um Leon Battista Alberti, de um Isaac Newton, de um Nicola Tesla, ou mesmo de um Galileu Galilei ou Avicenna (o persa), entre outros – mas nenhum desses, ao que tudo indica, nem de longe, comparável ao gênio de Da Vinci!

Já sobre a sua infância (e adolescência), sabe-se que o que menos chamava a atenção em Da Vinci eram os seus dotes intelectuais, e sim os físicos.

Pois era considerado, além de educado, bem-humorado e cortês, um jovem de extrema beleza, com os seus belos olhos azuis emoldurados por bastos cabelos loiros.

Em conjunto com um nariz afilado e com outras demais características que, como sabemos, ficaram mesmo foi na memória dos seus contemporâneos, pois o que a história consagrou foi o velhote, feio, enrugado e com cabelos e barbas brancas e bastante volumosas.

O anatomista Leonardo da Vinci

Sim, a anatomia deve, e muito, a Leonardo da Vinci! E essa é a opinião de inúmeros especialistas na área, que são categóricos ao afirmar que, munido apenas de pena e papel, o gênio foi capaz de traçar um quadro primoroso da organização interna do corpo humano.

A conformação óssea, funcionamento dos órgãos, estrutura de nervos e músculos, a utilidade de ligamentos, cartilagens, tendões…Enfim, definitivamente, o gênio nunca esteve satisfeito em apenas ser um “monumento da pintura” ou da música; e nem mesmo da escultura, medicina, engenharia, arquitetura… Não, nada disso!

Ele precisava ler os grandes anatomistas de antes do séc. XIV. Tinha que participar de estudos, dissecar corpos (animais e humanos). Precisava do conhecimento adquirido através dos estudos de um Mondino dei Luzzi (séc. XIV) ou de um Galeno de Pérgamo (séc. 3). Precisava consultar os alfarrábios com os estudos e descobertas vindos do oriente.

Tudo isso para antecipar Vesalius (o Pai da Anatomia), que beneficiou-se da não publicação de todo esse descomunal trabalho realizado pelo gênio de Da Vinci.

E dessa forma, consagrar-se – ele sim! – com o seu não menos monumental “De Humani Corporis Fabrica” (1543), que tornou-se a referência em anatomia para todas as pesquisas que viriam após a sua morte.

Para da Vinci restou a imortalidade! Por meio dos seus estudos aprofundados sobre a organização interna do corpo humano, granjeou recursos técnicos para os seus trabalhos em pintura, escultura, e até mesmo para algumas de suas invenções – que não foram poucas, diga-se de passagem!

Nos “Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci”, estão reunidos cerca de 1200 desenhos da anatomia humana feitos por ele, juntamente com as suas devidas explicações e descrições.

Como a que descobre, pela primeira vez, como ocorre um processo de entupimento das artérias. Ou a que implementa a melhor técnica (até então encontrada) para dissecar o cérebro de um cadáver, entre outras inúmeras contribuições para a anatomia.

Para muitos especialistas, foi a partir de Da Vinci que a representação do corpo humano, por meio de desenhos, passou a ser aceita e reconhecida como indispensável.

Ela deixou de ser uma aberração (pela valorização que se tinha apenas das obras escritas). E, mais que isso, tornou-se uma referência para os médicos-anatomistas da sua época (e posteriores).

Médicos-anatomistas que agora possuíam melhores condições de entender o funcionamento dos órgãos, o movimento das articulações, as reações dos músculos, entre outras funções do corpo humano.

Enquanto Da Vinci agora tinha o material que precisava para a sua grande paixão: a pintura. Pois, ao utilizar-se da anatomia para a construção da sua arte, ofereceu ao mundo alguns dos mais belos representantes da arte da pintura.

O gênio de Da Vinci

Dizem as más línguas, que a fama que Leonardo da Vinci adquiriu de fazer da arte apenas um exercício do espírito – por isso mesmo sem grandes preocupações com o profissionalismo que a sobrevivência por meio da arte exige – , não o permitiu contar entre os mais requisitados para a execução de trabalhos.

Apesar de lhe reconhecerem o gênio, a fama de que não era tão pontual com as entregas dos trabalhos corria Toscana afora!

Mas aos 20 anos de idade, Leonardo Da Vinci já havia atingido um grau de “mestre” na pintura, sendo inclusive aceito na Corporação de Pintores de Florença!

No entanto, ao que parecia, Milão seria o “porto seguro”, a partir de onde ele poderia oferecer todo o seu talento como arquiteto, engenheiro, pintor e escultor (mais ou menos por volta do ano de 1482).

Ludovico Sforza, duque de Milão, membro de uma importante família milanesa, teria sido um dos primeiros a quem Da Vinci teria se oferecido (longe de Florença) para executar obras que dependeriam da capacidade de um gênio – o duque tinha em mente construir uma espécie de monumento em honra ao seu pai.

Por meio de uma carta, Da Vinci não deixava dúvidas de que ele era o homem certo para o trabalho! Pois era capaz de “executar esculturas em bronze, mármore e argila; e em pintura realizar tanto quanto qualquer um que se apresentasse”.

Consta que o trabalho fora bem executado, e durante a sua execução, paralelamente a esta, uma outra obra (como sempre) já lhe ocupava a mente e as horas que lhe sobravam durante o dia: era apenas e tão somente a “Última Ceia”.

Era o “esplendor da arte Renascentista” – um mural com grandes dimensões, que foi executado por encomenda do mosteiro da Igreja de Santa Maria delle Grazie.

A obra, apesar de inicialmente ser considerada um desastre, devido à técnica escolhida por Da Vinci, já chamava a atenção de fiéis e devotos, que curiosamente passaram a visitar o mosteiro – como se já, inconscientemente, reconhecessem ali a obra de um gênio.

E era essa a rotina de Da Vinci: incansável. Ele simplesmente não conseguia parar e executar apenas uma ou outra obra – como um ser humano normal.

Com 42 anos essa sua característica era o que lhe granjeava maior fama! E mesmo sabendo que não seria certa a conclusão de qualquer trabalho que lhe fosse encomendado, as pessoas já sabiam que ele seria um dos poucos a quem poderiam recorrer para qualquer que fosse a solução artística, mecânica, arquitetônica, de engenharia, entre outras necessidades.

A sua capacidade de executar obras em diversos ramos da arte já impressionava e reputava-o como um excepcional!

A essa época, ele já havia produzido o Tratado Sobre a Pintura, a Adoração dos Magos (inacabada), diversos aparelhos mecânicos e O Batismo de Cristo (obra atribuída a seu antigo mestre Verrocchio, mas que é considerada de autoria indiscutível de Da Vinci – com apenas vinte e poucos anos!).

O Leonardo da Vinci inventor também começava a se impor ali, em Milão; e o que se diz é que foi nessa época que o primeiro projeto de um helicóptero (hoje bastante conhecido de todos) foi executado – antecipando, em séculos, o sonho desde sempre cultivado pelo homem de voar.

Projetos de urbanismo, sistemas de esgotamento sanitário, obras de paisagismo, incursões na arte da culinária; não havia nada que o seu gênio não pudesse empreender com igual maestria.

A ponto de, na segunda passagem pela sua cidade natal (Florença), contrariando o antigo ditado popular que diz que “santo de casa não faz milagres”, Da Vinci ser recebido quase como um semideus, em uma recepção digna do maior representante florentino da sua época.

Leonardo da Vinci e a sua concepção de arte

Leonardo da Vinci é considerado como aquele que colocou a arte Renascentista em um outro patamar! Ele alterou o modo como se via a arte (ainda em vida) na sua época – mesmo, como não poderia ser diferente, vivendo os eflúvios do pensamento Humanista do séc. XVI, a que ele, obviamente, não poderia escapar.

Tudo isso ainda mesclado com um pouco da arte greco-romana, com a natureza observada cientificamente (inclusive para fins artísticos), com a influência do Maneirismo (na qual, mais uma vez, a visão particular do indivíduo interpreta as influências naturalistas e greco-romanas), entre outras especificidades do gênio.

A arte deveria ser uma forma de expressar, com a maior veracidade possível, o que se quer dizer: esse seria, em resumo, o pensamento de Da Vinci.

Seria por meio da pintura (a maior das artes, segundo ele), com os recursos da cor, retratação do imediato, percepção por imagens, expressão direta das sensações, entre outras características, que o artista (segundo ele) criaria essa ponte entre o meramente natural (científico) e o espiritual.

Como um típico mestre Renascentista, Da Vinci acreditava que a arte teria como função primordial “imitar ou representar, com a máxima perfeição e exatidão possíveis, a natureza” – entendendo a natureza, obviamente, como os reinos Mineral, Vegetal e Animal (onde o homem, também obviamente, teria um papel de destaque até mesmo na forma de expressá-lo artisticamente).

E é aí que temos Da Vinci em sua distinção clara dos demais da sua época, já que essa “representação artística da natureza” deveria ser uma representação com base científica, em que os outros ramos do conhecimento (daí a sua obsessão por eles) se coadunassem para que essa expressão fosse cientificamente exata.

A ciência a serviço da arte

Os princípios geométricos, as escalas, os experimentos, os fenômenos ópticos, medições, cálculos; todo esse cabedal de informações deveria ser o alicerce do pintor.

Com o auxílio dele, o artista deveria criar uma obra que parecesse “viva”; e, mais que isso, como se até fora preenchida por um espírito ou por algo que, certamente, emanava do espiritual.

Enfim, ao invés da força sugestiva da arte que viria logo após, o que Da Vinci buscava era a força da veracidade, com base na ciência, que permitiria a delineação de formas exatas, o contraste entre luz e a sombra”, os mistérios da perspectiva, etc.

E tudo isso de forma a que, mais do que impressionar pelo colorido, estranheza e impacto, a pintura impressionasse pela perfeição em comparação com a natureza viva.

Antecipando o Romantismo, Da Vinci também antecipava Dostoiévski, segundo o qual “o verdadeiro escritor é o que consegue extrair arte até mesmo das ordinariedades”; ou um Flaubert, para o qual “não existem temas banais, pois tudo depende de como você os escreve”.

Da mesma forma, para Da Vinci, ao invés de procurar o belo na natureza, o verdadeiro pintor é aquele que produz arte até mesmo a partir de banalidades – desde que, obviamente, consiga retratá-las com perfeição.

Ultrapassando obstáculos, propondo novas soluções, experimentando cientificamente, mas sem deixar de preencher-se com o “inexplicável”.

E tudo isso por meio do esforço do intelecto (a grande “ferramenta” do artista), e com a convicção de que o objeto artístico produzido (seja ele uma pintura, escultura, prosa, poesia, música, entre outros) na deverá passar do simples resultado do “Conhecimento adquirido” – do “Conhecer”.

O resultado do exercício de um espírito intelectualmente desenvolvido – como o de um Da Vinci, que é capaz, ainda nos nossos dias, de deixar a todos sem respostas. E estupefatos, tentando, inutilmente, decifrar monumentos como a sua Monalisa.

 

Fontes:

http://www.unicamp.br/unicamp/sites/default/files/jornal/paginas/ju_568_pagina_04_0.pdf

https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/176765/345880.pdf?sequence=1

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/03/suposta-escultura-feita-por-leonardo-da-vinci-e-revelada-em-florenca.shtml

https://www.huffpostbrasil.com/2018/04/15/nem-artista-nem-cientista-quem-era-de-fato-leonardo-da-vinci_a_23410931/

https://www.lpm.com.br/livros/imagens/leonardo_biografia.pdf

http://mestres.folha.com.br/pintores/03/obras.html

http://leonardodavinci.cc/a-arte-de-pintar/

http://www.poiesis.uff.br/PDF/poiesis11/Poiesis_11_artecoisamental.pdf

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